Uma das principais demandas sociais brasileiras, em termos estruturais e de percepção do público, reside na questão educacional. Embora seja um terreno amplamente povoado pelas atitudes das marcas, trata-se de um campo em permanente desenvolvimento, cuja causa aponta para novos e desafiadores caminhos. Para uma melhor compreensão deste cenário, conversamos com o especialista em educação móvel Martín Restrepo. O empreendedor colombiano, radicado há cinco anos no Brasil,  é conferencista e consultor internacional. Em sua empresa, a editora Editacuja, trabalha pelo acesso a tecnologias móveis para fins educacionais, culturais e sociais, desenvolvendo programas de formação de professores, integração de tecnologias e criação de conteúdos móveis, ubíquos e transmidiáticos, entre eles a MEL (Mobile Education Lab), primeira comunidade latinoamericana especializada no assunto.

Com:Atitude: Embora haja demandas extremamente básicas na educação brasileira – como infraestrutura, formação de professores, entre outras – por outro lado há caminhos para o futuro que não podem ser perdidos de vista. Quais são eles?

Martín Restrepo: A escola deve estar mais presente na comunidade, e as comunidades precisam estar mais presentes na escola, desenvolvendo iniciativas que permitam gerar conexões com o mundo real, as realidades e necessidades que temos como sociedade, gerando valor na aprendizagem mediante a aplicação do conhecimento e de criatividade na solução de problemas, bem como na criação de projetos de atendimento às necessidades locais. A escola pode operar hoje muito mais como incubadora de boas práticas a até como editora de conteúdos educacionais, pois se promovemos a troca de conhecimento na escola (professores, alunos, pais e comunidade criando) podemos configurá-la como uma produtora muito valiosa de conteúdos, cuja produção se viabiliza com o uso das tecnologias na mobilização de iniciativas transformadoras.

C:A: Como promover ao mesmo tempo a inclusão digital dos alunos e inseri-los nestes novos ambientes de aprendizagem?

MR: Aplicar as tecnologias e dar sentido produtivo para todas elas é a melhor forma de promover inclusão digital. Hoje temos, por exemplo, smartphones e tablets com diversas funcionalidades a preços mais baixos, somados ao acesso a redes de telecomunicações mais modernas e internet móvel a preços razoáveis. O boom dos aplicativos está levando os usuários a se tornarem não apenas consumidores, mas criadores de conteúdos. Tudo isto configura um ecossistema digital perfeito para a inclusão. Temos todos os ingredientes para nos tornarmos protagonistas nesta sociedade da informação e de usar as tecnologias digitais como meio de democratização, de acesso à educação, de mobilização de causas sociais e de desenvolvimento. Inclusão digital hoje não está apenas atada a saber mexer numa planilha de texto ou dados, mas em usar as redes, as tecnologias para colaborar, cocriar e assumir um papel muito mais ativo no mundo.

C:A: De que forma as tecnologias auxiliam no processo de aprendizagem para além dos muros escolares? Como a relação entre indivíduo e espaço público se transforma?

MR: As tecnologias móveis não gostam de ficar presas, elas precisam ocupar espaços, tempos, estar em movimento, assim como a educação, que precisa sair dos muros da escola para se conectar com o mundo. É por isto que nasce uma oportunidade maravilhosa com o Mobile Learning, conectando o mundo real com as possibilidades tecnológicas, criando conteúdos inovadores, que oferecem experiências significativas para os aprendizes. É como se enxergássemos o mundo e suas praças, parques, museus, bairros, como salas de aula e os nossos estudantes se apropriassem destes espaços, mobilizando conhecimento coletivo e novas tecnologias.

C:A: Quais os novos papeis do professor nesse panorama? Ele torna-se um mediador ou um comunicador?

MR: O professor tem que aprender junto com os alunos, ele já não é mais detentor do conhecimento e sim um propagador de experiências educativas com valor. Neste novo cenário ele tem que promover a troca de conhecimentos, a sistematização de informação à qual temos hoje acesso, tornar-se um criador de conteúdos, um cocriador de experiências, desafios e novas práticas educacionais. O professor contemporâneo é um colaborador que, em rede com outros educadores e alunos, conseguirá criar repositórios colaborativos de novos conteúdos, integrando-se na economia criativa e até encontrando novas formas de remunerar seu trabalho dentro desta nova economia.

C:A: Como as marcas podem se associar a estas novas perspectivas educacionais? Já existem casos concretos?

MR: As marcas desempenham um papel muito interessante em todo este desafio, já que têm o poder de mobilizar causas e conteúdos relevantes que representem o sentido social de todas elas. Investir em educação e promover projetos de transformação educativa, além de conteúdos inovadores, pode ser uma grande ideia. Para gerar engajamento dos consumidores, as marcas podem promover a criação de conteúdos como serviço que agregam valor para o usuário. Se uma empresa é líder no setor energético, por exemplo, poderia compartilhar conhecimento, aplicativos e práticas educacionais em torno deste tema; se é do setor de telecomunicações, explorar como as redes têm hoje o poder de transformar comunidades e criar projetos e serviços de valor agregado que usem o potencial destas redes. Na saúde, promover iniciativas que eduquem os usuários em questões de bem-estar e qualidade de vida. Toda marca pode encontrar sua identidade educativa, seu conhecimento para compartilhar, suas causas para contribuir com a transformação. Outra coisa interessante é que as marcas podem se tornar investidoras e promotoras de negócios sociais, que além de transformar podem ser bastante lucrativos, pois não é negativo gerar a transformação e fazer disto uma prática sustentável no tempo, deixando de ser apenas assistencial.

C:A: De que modo a ação das marcas pode auxiliar positivamente na revisão e criação de políticas públicas?

MR: As políticas públicas criam cenários que aceleram o desenvolvimento de novos mercados, novas tecnologias e dão acesso a recursos que permitem a massificação de boas causas e iniciativas. Quando as marcas estão mais engajadas em causas como educação e serviços de valor para os consumidores, estão assumindo um papel transformador em uma sociedade que demandará políticas públicas para acelerar o impacto das suas causas. É um novo ativismo que nos faz repensar a sociedade capitalista em que vivemos e que pouco a pouco nos está inserindo na economia criativa, do conhecimento, da informação, do compartilhamento e de um papel muito mais solidário de todos como membros desde mundo mutante e em rede.