Demandas de grandes cidades têm ganhado crescente importância nos debates sobre causas socialmente relevantes. Uma delas diz respeito à conciliação entre mobilidade e defesa da cidadania. As questões relativas a planejamento urbano e meios de transportes mais sustentáveis figuram entre os pontos principais de discussão. A inserção dos ciclistas neste contexto é um dos temas mais sensíveis neste sentido. A saturação da cultura do automóvel nos grandes centros agrava o panorama, que envolve diversos públicos, como ONGs e o poder público. As ciclofaixas, campanhas de educação no trânsito e as ações da iniciativa privada são paliativos para uma verdadeira mudança que será necessária ao cotidiano das metrópoles.

De acordo com a pesquisa Origens e Destinos do Metrô de São Paulo, em dez anos (de 1997 para 2007), o número de deslocamentos de bicicleta aumentaram em 176% – de 135 mil para 335 mil. Ainda existe, no entanto, certa resistência e medo na adesão ao ciclismo, mas a tendência é que a demanda por espaço para pedalar em centros urbanos só aumente. Neste cenário complexo, como as marcas podem fortalecer suas abordagens em relação à democratização e a incorporação de uma “cultura da bicicleta”?

Thiago Benicchio, diretor-geral da Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo

O diretor-geral da Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo), Thiago Benicchio, conversou com o Com:Atitude e demonstrou a carência de iniciativas que incentivem o ciclismo como meio de transporte, ultrapassando a questão do lazer e do incentivo ao esporte – tema que já é bem explorado.

A organização sem fins lucrativos foi criada em novembro de 2009 pela limitação de diálogo existente entre os ciclistas e o poder público. A comunicação institucional se fez necessária e, hoje, a Ciclocidade concentra seus esforços em fortalecer esse diálogo e colocar a bicicleta como meio de transporte seguro, respeitoso e utilizado em larga escala. A ONG também atua na promoção de encontros e eventos educativos, que explicitam o que é o ciclismo urbano. “A bicicleta não precisa ser utilizada como meio de transporte exclusivo, mas deve ser uma opção segura; precisamos normalizar a bicicleta e descondicionar o olhar perante o ciclista”, afirmou.

Existem algumas iniciativas pioneiras de empresas, mas ainda há oportunidades para a atuação delas. Um caminho para a realização de ações é a parceria público-privada: “as marcas precisam contar com apoio do poder público já que a atividade em si é realizada em um espaço público; essa parceria é fundamental”. No caso do braço de Seguros e Previdência do Bradesco, a marca patrocinou a ciclofaixa de São Paulo, em parceria com a prefeitura, inaugurada em agosto de 2009, ativada somente aos domingos e feriados. A via é sinalizada, possui 30 quilômetros de extensão e recebe cerca de 14 mil pessoas das 7h às 16h. A marca também criou a SOS Bike, plataforma que disponibiliza mecânicos para os ciclistas nestes dias.

Já a Porto Seguro criou a Cidade Portinho Seguro Auto, local onde as crianças recebem aulas de educação para o trânsito ao utilizar bicicletas. A empresa também lançou o programa UseBike, com a instalação de bicicletários em redes conveniadas de estacionamentos.

De qualquer forma, são ações que ainda não possuem abrangência consistente: “temos uma adaptação precária ao uso da bicicleta, mas isso não acontece por conta da falta de vontade das empresas em investirem, mas, principalmente, pela falta de estrutura das cidades”, diz.

Benicchio também destacou a importância de internalizar a cultura da bicicleta antes de investir em ações concretas e, também, a distância e falta de conhecimento sobre o tema: “é necessário uma sinergia entre o marketing e o cotidiano de uma marca, ou seja, ela precisa incentivar o uso da bicicleta entre seus funcionários, ter vestiários etc. Além disso, os grandes executivos precisam conhecer a realidade do ciclista e realmente pedalar, entender a dinâmica para talvez encontrar soluções mais criativas ao propor suas ações nesta área”.

Ainda falta uma integração maior entre empresas, ONGs e setor público em prol da causa dos ciclistas no país, mas existem benchmarks internacionais que comprovam que uma solução inteligente seria possível, como o Velib na França e o recém-lançado programa do banco britânico, Barclays, que disponibilizará 6 mil bicicletas em 400 paradas de Londres, a preços baixíssimos.

Trata-se de uma causa real, relevante e que poderá ser uma plataforma importante para atitudes de marca consistentes e transformadoras. Para tanto, tais ações deverão unir alinhamento cultural interno, gestão eficaz, comunicação adequada e, principalmente, conhecimento do problema para que sua mitigação seja medida e acompanhada. Por isso, parcerias junto ao poder público, ciclistas, planejadores urbanos e ONGs como a Ciclocidade serão fundamentais. O engajamento é a saída.