A operação brasileira da maior rede de varejo do mundo ainda não dispõe de uma metodologia para aferir os resultados dos investimentos nas suas atitudes ambientais, frequentes nos últimos anos. Mas seus gestores não têm dúvida que o Walmart vem obtendo reconhecimento crescente dos seus públicos estratégicos desde 2005, quando o então presidente global da companhia, Lee Scott, fez o discurso “Liderança do Século XXI” e revelou que a sustentabilidade passara a ser uma das diretrizes nos negócios da empresa.
“Quando o Walmart se posicionou condenando a pecuária bovina irregular na Amazônia, em 2009, e se comprometeu a não tolerar fornecedores que utilizassem práticas ilícitas no seu processo produtivo, observamos repercussão muito positiva entre formadores de opinião e stakeholders”, exemplifica a gerente de sustentabilidade do Walmart Brasil, Júlia Noble.
É assim que as ações têm sido avaliadas: pelo feedback de seus públicos. O impacto direto nos negócios da filial brasileira ainda não é mensurado, mas dados globais indicam que o esforço do Walmart tem gerado bons resultados.
Desde 2005, as ações da companhia nas bolsas de valores americanas não sofrem mais reveses por conta de notícias que abalavam a sua reputação, como se tornou recorrente no período entre 2000 e 2005. Ora alguma ONG denunciava que os funcionários do Walmart não tinham direito a intervalo para refeições, ora surgia na mídia acusação contra a rede de varejo por contratar fornecedores que empregavam crianças. E, não raramente, criticava-se o descompromisso da empresa com a quantidade vultosa de lixo que produzia.
Com a campanha lançada em 2005 com o objetivo de recuperar o estrago já causado por anos de ausência de uma política de sustentabilidade, os resultados não tardaram a aparecer. Dois anos depois, o tom das notícias que atrelavam os termos “Walmart” e “sustentabilidade” não era mais crítico, e sim elogioso. Sem perder o ritmo, o Walmart tem incrementado as suas ações ano a ano.
“Aqui no Brasil, já começamos a trabalhar em 2005 com as três metas estabelecidas por Lee Scott: gerar resíduos zero, ser suprido 100% por energia renovável e vender produtos mais sustentáveis e que contribuam para a manutenção dos recursos naturais e meio ambiente”, afirma Júlia Noble.
As duas primeiras metas ainda estão longe de serem alcançadas. A última, por sua vez, está bem encaminhada desde o lançamento do projeto “Sustentabilidade de Ponta a Ponta”, que consiste em alterar o ciclo de vida de alguns produtos fazendo chegá-los às prateleiras mais sustentáveis. Para isso, análises fora feitas pelo Cetea (Centro de Tecnologia de Embalagens) e indicadas mudanças que deveriam ser realizadas nas cadeias produtivas. O Walmart passou os dados para os seus fornecedores e empresas representadas na imagem ao lado adotaram diversas.
A gerente de sustentabilidade do Walmart Brasil destaca que essas modificações nos produtos foram comunicadas de forma “muito clara e precisa para os consumidores”, permitindo, segundo ela, distinguir uma ação consistente do mero greenwashing.
Durante o Comitê Aberje de Sustentabilidade, realizado no fim de junho, a diretora de Assuntos Corporativos da Unilever, Juliana Nunes, falou sobre mudanças feitas no Band-Aid, produto da marca Johnson&Johnson, estimuladas pelo projeto do Walmart. “Reduzimos as embalagens em 18% e isso resultou em menor consumo de matéria-prima, possibilidade de transportar mais produtos em menos viagens, impactando na redução de emissão de CO2″, disse a executiva.
Embora o Walmart não “denuncie” à sociedade os fornecedores que, por alguma razão, não tenham aceitado fazer modificações nos produtos para diminuir seu impacto ambiental, esses produtos perdem espaço e visibilidade nas prateleiras e, inevitavelmente, sentem o efeito de irem “contra uma corrente” criada por uma empresa gigantesca – em 2009, o faturamento da companhia foi de US$ 408 bilhões, desbancando a petrolífera Exxon Mobil no ranking anual das maiores empresa dos Estados Unidos produzido pela revista Fourtune .
Nessa nova dinâmica de relacionamento com o meio ambiente, os prêmios tornaram-se constantes, promovidos ou conquistados pela empresa. Já na sua terceira edição, o Prêmio Varejo Sustentável, por exemplo, é um investimento do Walmart nos pesquisadores de instituições brasileiras que buscam soluções para o desenvolvimento sustentável em toda a cadeia varejista de supermercados. Já entre os prêmios ganhos pela unidade brasileira, estão o “Von Martius de Sustentabilidade”, oferecido pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha, o “Brasil de Meio Ambiente”, realizado pelo Jornal do Brasil, JB Ecológico e JB Online, e “Empresa Sustentável do Ano”, concedido pela revista Exame.
Lucros ampliados pela redução nos gastos
Sob o prisma da economia, as atitudes que o Walmart vem tomando, de forma global ou regional em relação à sustentabilidade, apresentam resultados que vão além do maior interesse de investidores pelas ações da empresa ou da maior identificação dos consumidores conscientes com a empresa.
Reduções nos gastos com água e energia já são uma realidade na empresa. Isso porque o plano de sustentabilidade prevê metas como “reduzir a emissão de gases de efeito estufa em 20% nas lojas da companhia até 2012″. Para atingi-las, o Walmart passou a investir em lojas “ecoeficientes”.
“Essas unidades requerem um investimento de 1% a 2% maior em relação a uma loja que não é ecoeficiente, mas esse investimento é compensado a médio prazo porque ele gera economia no consumo de água, energia e refrigeração”, destaca Júlia Noble antes de ressaltar que “as lojas ecoeficientes fazem sentido para o negócio ao mesmo em que têm um impacto consideravelmente menor no meio ambiente”.
O conjunto de iniciativas deixa claro que o Walmart soube aproveitar o momento de crise e transformá-la em oportunidade para uma grande mudança. A empresa respondeu à pressão da opinião pública com uma estratégia ousada e já desfruta de resultados positivos.


